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17 de Outubro de 2021

A importância da Educação Infantil no contexto da pandemia de Covid-19

Camila Moreira, Pedagogo
Publicado por Camila Moreira
há 4 meses

A Educação Infantil é considerada a “primeira etapa da Educação Básica, e tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança de até cinco anos, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade” como mostra o Art. 29 da Lei nº 9.394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educacao Nacional - (LDB).

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) diz que a Educação Infantil deve “ampliar o universo de experiências, conhecimentos e habilidades dessas crianças, diversificando e consolidando novas aprendizagens, atuando de maneira complementar à Educação familiar”. O documento complementa, dizendo que cabe ao educador “refletir, selecionar, organizar, planejar, mediar e monitorar o conjunto das práticas e interações, garantindo a pluralidade de situações que promovam o desenvolvimento pleno das crianças”.

Neste contexto de pandemia de Covid-19, em que o distanciamento social é uma das estratégias adotadas para evitar a propagação do contágio do vírus, e que com o planejamento de retomada de atividades presenciais nas redes públicas de ensino, os municípios sentem dificuldade em trabalhar as brincadeiras e interações – atividades individuais e coletivas - como pede a BNCC, respeitando as orientações sanitárias de distanciamento, e retardam o possível retorno presencial desta etapa da educação, vimos falar sobre a importância dela.

Este é o momento escolar em que as crianças começam a interagir e descobrir o mundo a sua volta, fora do seu ambiente familiar, fazendo amigos e aprendendo a conviver e respeitar as diferenças culturais. Dessa forma, o ambiente escolar da Educação Infantil é o primeiro local em que as crianças terão contatos fora de suas zonas de conforto e passarão a socializar com outras crianças e adultos de forma mais intensa e frequente. Pois os primeiros anos de vida das crianças são de extrema importância para o desenvolvimento das habilidades sociais e expressivas. Assim, esse ambiente escolar passa a ser a porta de entrada de um novo conhecimento e de um mundo diferente para elas.

A partir disso, na Educação Infantil se trabalham as potencialidades da criança como um ser social, valorizando seus conteúdos e apresentando as cores, formas, letras, palavras, números, quantidades, sons, rostos e gostos. Por conseguinte, se faz uso dos sentimentos e sensações das crianças que ao se misturarem acabam ocasionando um mundo de experiências, descobertas e de possibilidades diversas para elas. Neste contexto, elas passarão a desenvolver necessidades básicas que por sua vez serão fundamentais para esse indivíduo durante todo o processo de ensino e aprendizagem.

Considerando que a escola tem como papel fundamental durante a Educação Infantil, a função de despertar as crianças para a percepção de mundo dinâmico no qual elas estão inseridas, cumpre evocar os seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento propostos pela BNCC, quais sejam:

· Conviver com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas.

· Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais.

· Participar ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando.

· Explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia.

· Expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens.

· Conhecer-se e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas na instituição escolar e em seu contexto familiar e comunitário.

Nessa faixa etária da educação infantil, todos os momentos nos quais as crianças estão vivenciando dentro ou fora do ambiente escolar são educativos e envolvem cuidados. Visto que, na medida em que estão constantemente aprendendo, elas compreenderão o mundo que as rodeia através de suas interações diárias. Dessa forma, a utilização dos jogos, brinquedos e brincadeiras quando bem conduzidas pelos professores conseguem modificar ideias, pensamentos, comportamentos e dizeres dessas crianças. Então, a brincadeira tem importância em si mesma e, por isso, deve ser valorizada pelos professores da Educação Infantil, fazendo com que todas as atividades e propostas pedagógicas sejam enriquecedoras. E assim, percebendo nas atividades individuais e coletivas, nas brincadeiras, nos jogos, nos brinquedos, nos movimentos das crianças e nas atividades corporais momentos de ensino e aprendizagem tão importantes quanto.

Assim, a manutenção do ensino remoto para este público, exige demasiado empenho e disponibilidade dos familiares, pois as atividades direcionadas não são passiveis de serem realizadas com autonomia pela própria criança, além de constituir um desafio para o professor no planejamento delas.

É bem verdade que durante um tempo, os familiares e responsáveis passaram a ser vistos como mediadores nas rotinas diárias das tarefas escolares e tiveram a oportunidade de participar de forma ativa na educação da criança, porém, dado o longo período de fechamento das escolas, muitos perceberam como é grande o desafio de se realizarem atividades lúdicas como jogos e brincadeiras através dos smartphones, tablets e computadores a distância com crianças em pré-escolas e creches. Isto porque:

· Crianças desta faixa etária não devem passar muito tempo em frente a telas. Mesmo os mais importantes vídeos devem ser rápidos, claros e objetivos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o tempo ideal seria de uma hora diária.

· Os pequenos perdem o interesse rapidamente, clareza e objetividade são fundamentais.

· Vídeos curtos com atividades de psicomotricidade, coordenação motora fina, coordenação global etc. precisam ser repetidos muitas vezes, em casa, pois são atividades cotidianas no espaço escolar.

As demais atividades envolvendo leitura e interpretação (os pais lendo um livro e gravando a interpretação da criança), experiências de ciências (do tipo plantar o grão de feijão), atividades manuais com massa de modelar, lápis de colorir, materiais recicláveis e outros, assim como as atividades físicas que trabalham a consciência corporal (tipo dançar, jogos coletivos, andar sobre linha reta no chão), igualmente dependem exclusivamente da supervisão de um adulto, de preferência com o mínimo de instrução para compreender as respostas que a criança dá a cada estímulo.

Por isso, ainda que não esteja claro para alguns, a Educação Infantil contribui, sim, na formação do indivíduo e, consequentemente, do cidadão ativo e participante da sociedade, pois transmite valores, regras e atitudes essenciais que serão lembrados e utilizados por toda a vida, proporcionando experiências e interações com o mundo social e físico de forma ajustada às sucessivas idades que abrange, seguindo princípios pedagógicos de acordo com o desenvolvimento precoce.

O brincar exige participação e engajamento, com ou sem o brinquedo, sendo uma forma de desenvolver a capacidade de manter-se ativo e participante. Tem ainda a vantagem de proporcionar alegria e divertimento, sendo um impulso no desenvolvimento da criatividade, na competência intelectual, na força e na estabilidade emocional, lidando diretamente com sentimento de alegria e prazer.

Não podemos deixar de falar da autonomia, que é um dos objetivos primordiais da Educação Infantil. Em um processo contínuo, incentiva-se a criança aos cuidados com o corpo, à organização de seus materiais, à colaboração na organização da sala, à boa alimentação, à adesão de hábitos saudáveis, à responsabilidade, à construção autônoma das atividades, à exposição de ideias e pensamentos e ao desenvolvimento do senso crítico-reflexivo e da autoconfiança, entre outros aspectos.

A autonomia é essencial à vida, pois o homem, enquanto cidadão e sujeito ativo da comunidade, precisa ser capaz de governar a si mesmo, visando o seu bem-estar e o do outro, podendo agir com segurança e eficácia na busca por seus sonhos e sua realização pessoal.

Por fim, citamos a psicomotricidade já que o movimento é a forma que as crianças utilizam para conhecer a si e ao mundo e então encontrar competências para atuar no meio em que vivem, desenvolver o toque, a segurança, o traçado, a ação motriz, o controle sobre os braços, as pernas e os movimentos em geral, a direção etc. Atividades como correr, pular, dançar, desenhar, utilizar a massinha de modelar, entre outras, geralmente ocorrem diariamente na Educação Infantil.

Neste viés, compreendemos que os obstáculos mais evidentes enfrentados por essas crianças no contexto atual, se referem a socialização e afetividade, adaptação à rotina, coordenação motora fina, manuseio de materiais didáticos, aprendizado e egocentrismo aguçado, pois muitas crianças não possuem convívio frequente com outras da mesma faixa etária estando apenas em casa. Caso esse convívio ocorra, ele acontece em situações informais, causando nas crianças uma enorme dificuldade em se relacionar com o outro, em partilhar e se integrar ao grupo, esperar por sua vez, seguir a rotina, as normas e regras estabelecidas no cotidiano da escola.

Muitas emoções, como ciúme, medo, tristeza, tédio, ansiedade e surpresa, apresentam-se desde a primeira infância, podendo levar a criança a reagir de maneira agressiva, apática ou exibicionista. Na escola, cabe aos educadores da Educação Infantil interferir nesses conflitos através de trabalhos em grupo, do estabelecimento de regras, do respeito ao próximo e da imposição de limites. Desse modo, são proporcionados momentos em que as crianças aprendem a esperar sua vez, a dividir e a lidar com as diferenças, percebendo-se membro de uma sociedade onde nem sempre elas serão consideradas o centro das atenções.

Uma vez entendido o verdadeiro sentido dessa etapa da educação e a sua importância em relação à formação da pessoa, a educação disporá de novos rumos que engrandeçam a sua ação para as crianças desde a primeira infância, como instrumento que colabora para a formação crítica e reflexiva do cidadão.

Referências:

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educacao Nacional, LDBEN. Lei nº 9.394/96. Brasília, 1996.

______. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, 2017.

JORNADA EDU. Dicas de atividades de Educação Infantil no ensino remoto. Disponível em: https://jornadaedu.com.br/praticas-pedagogicas/atividades-de-educacao-Infantil/. Acesso em: 19 maio 2021.


Camila F. Moreira - Pedagoga e Especialista em Gestão de Pessoas

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